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TREINAMENTO FÍSICO DE ALTA INTENSIDADE PARA CRIANÇAS COM LEUCEMIA – NÃO PASSOU DA HORA DE PERDERMOS O MEDO E DARMOS UM PASSO EM FRENTE?

O Câncer, caracterizado como um conjunto de doenças que resultam num crescimento acelerado e anormal das células de um tecido específico, pode se manifestar de diferentes maneiras, em diferentes tecidos e em diferentes idades [1]. Na infância, o Câncer mais comum é a leucemia linfoblástica (ou linfóide) aguda (LLA), sendo ela responsável por 30% de todos os Cânceres diagnosticados em crianças com menos de 15 anos de idade [2]. Esse post se dedicará a discorrer um pouco sobre esta doença, bem como sobre o treinamento físico como possível estratégia de tratamento.

Uma breve visão sobre a leucemia linfoblástica aguda

Até hoje as causas da LLA são desconhecidas. O que se sabe, é que ela é caracterizada pela multiplicação excessiva de um dos tipos de glóbulos brancos, o linfócito. Apenas para destacar, sendo um glóbulo branco, o linfócito tem função de defesa do organismo, e está relacionado com a imunidade adquirida. Nesse tipo de Câncer, há uma proliferação excessiva dos linfócitos, mas estes permanecem em seu estado imaturo, não amadurecem. E com isso, a medula óssea fica cheia dessas células e não consegue mais produzir as outras células que compõem o sangue. Isso é preocupante pois a ausência de produção das demais células que compõem o sangue implicará no comprometimento das funções as quais elas eram responsáveis, e assim, sintomas da doença geralmente incluem infecções frequentes, febres, anemia e cansaço [3].

Leucemia linfoblástica aguda: como tratar?

O tratamento da LLA inclui principalmente a quimioterapia convencional, e apesar de extenso (a duração pode variar de 2 a 3 anos), ele vem sendo considerado bastante satisfatório. Mas mesmo que as taxas de cura da LLA tenham aumentado consideravelmente nas últimas décadas, a qualidade de vida e a aptidão física dos sobreviventes tornaram-se uma preocupação crescente [4,5]. Essa preocupação é sustentada por pesquisas que já mostraram que crianças em tratamento contra a LLA apresentam menor capacidade funcional e qualidade de vida do que crianças saudáveis [6]. Além destas pioras estarem entre as consequências causadas pela doença em si, elas também estão configuradas como efeitos adversos relacionados ao tratamento da LLA, os quais envolvem ainda fraqueza muscular, osteoporose, redução da flexibilidade e dores [4]. Por conta disso, a prática regular de exercícios físicos para crianças com LLA concomitantemente ao tratamento convencional vem emergindo e sendo sugerida por diversos cientistas e profissionais da saúde como estratégia não farmacológica com vistas a contra-atacar a perda da capacidade física e qualidade de vida desse público.

Exercício físico: um potencial coadjuvante no tratamento da leucemia linfoblástica aguda?

Apesar disso, destaca-se que ainda é baixo o número de pesquisas que já foram conduzidas examinando a real eficácia e segurança de programas de treinamento físico para crianças e adolescentes com LLA, sendo que a maioria destas pesquisas aplicou seus programas de treinamento em ambiente intra-hospitalar e em intensidades mais baixas, o que dificulta a criação de recomendações mais amplas. Ainda assim, as evidências científicas sugerem que esta parece ser mesmo uma ótima alternativa! Por exemplo, ao submeterem 7 crianças (4 a 7 anos) com LLA a um programa de treinamento intra-hospitalar de 16 semanas, que incluiu exercícios de musculação e aeróbios de intensidade baixa a moderada, um grupo de pesquisadores espanhóis de destaque neste assunto observou melhoras interessantes na aptidão aeróbia dos pacientes, além de ganhos modestos, mas clinicamente relevantes, na força de membros superiores e inferiores [7,8]. E o melhor de tudo, o treinamento foi perfeitamente tolerável! Mesmo que ainda estejamos apenas no início das descobertas, outras pesquisas aplicando programas de treinamento de características parecidas a este público também têm mostrado resultados animadores [9]!

Ainda que mais pesquisas sejam necessárias nesse ramo, é fato que cresce cada vez mais o corpo de evidências apoiando o papel terapêutico do treinamento físico, em intensidade leve à moderada, para a melhora da capacidade física de crianças e adolescentes com LLA [9]. Por outro lado, faço questão de ressaltar aqui que as pesquisas empregando intensidades mais elevadas de treinamento físico a este público são, praticamente, inexistentes. O que é curioso, dado que intensidades maiores de treinamento físico propiciarão maiores e melhores adaptações ao treinamento [10,11]. Talvez essa ausência de pesquisas com programas de treinamento físico de alta intensidade a este público se dê por conta do fato de que exercícios de alta intensidade, agudamente (isto é, após a sessão de treino), deprimem a função imune em adultos [12]. Isso é preocupante pois teoricamente esta queda da imunidade com as sessões de treino poderia impor riscos aos pacientes com LLA, os quais já são mais propensos a infecções sistêmicas do que as pessoas saudáveis.

Eficácia e segurança de treinamentos intensos para pacientes com a leucemia linfoblástica aguda

A única pesquisa que já se arriscou na empreitada de aplicar um programa de treinamento físico de alta intensidade para crianças e adolescentes com LLA advém de um grupo de pesquisa o qual eu tenho muito orgulho de dizer que eu já fiz parte: O Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia, localizado no Prédio dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas. Nesta pesquisa, nós recrutamos 6 pacientes em fase de manutenção de tratamento da LLA, com idade entre 6 e 16 anos, variado tempo sob tratamento quimioterápico (30 a 116 semanas), e submetemos eles a 12 semanas de treinamento físico [13]. As sessões de treino ocorriam no Laboratório, duas vezes por semana, e incluíam principalmente a realização de 5 exercícios de musculação (tá bom, para quem é mais curioso e fã de musculação, os exercícios eram o supino, puxada pulley, remada baixa, leg press e cadeira extensora). Em cada exercício eram realizadas 4 séries, com cargas que possibilitavam o paciente a executar de 6 a 10 repetições máximas [13]. Apenas para constar, cargas de treino que levam a nomenclatura ‘repetições máximas’ não permitem o indivíduo realizar uma única repetição extra além da faixa de repetições determinada! Em outras palavras, quero dizer que o treino era bem pesado mesmo! Ele só foi mais leve nas duas primeiras semanas, as quais consistiram em uma adaptação ao protocolo de treino com cargas mais baixas [13].

A figura abaixo mostra os resultados principais da nossa pesquisa, onde a carga máxima erguida em cada um dos 5 exercícios foi somada uma à outra, de forma a fornecer o valor de ‘força total’ de cada criança, antes e depois do programa de treinamento. Aliás, cada linha do painel à esquerda representa a força total de cada uma das 6 crianças, enquanto o painel à direita representa os resultados agrupados destas crianças. Não está entendendo a figura? Não tem problema, te explicarei por aqui mesmo: Em resumo, os nossos resultados indicaram que o programa de treinamento de 12 semanas envolvendo exercícios de musculação de alta intensidade promoveu melhoras marcantes da força total (aproximadamente 70%!!!) das crianças e adolescentes sob a fase de manutenção do tratamento da LLA [13]!! E importantemente: sem nenhum efeito adverso, perfeitamente aceitável!! Além disso, ressalta-se que um aumento na qualidade de vida desses pacientes, avaliada através de questionários, também foi identificada como consequência do programa de treinamento físico, o que provavelmente foi consequência do ganho de força.

Quais perspectivas futuras podemos levar desses resultados?

Ao apresentar este resultado pioneiro, não estou querendo dizer com esse post que programas de treinamento intensos devam ser aplicados a todo e qualquer público com LLA, a ‘torto e redondo’. Até porque a quantidade de crianças envolvidas na pesquisa foi relativamente baixa e estas já se encontravam na fase de manutenção do tratamento (ou seja, a doença estava estabilizada!). Mas, sem dúvida, está claro que já passou da hora de ensaios clínicos randomizados serem conduzidos investigando a segurança e eficácia desse modo de intervenção, em uma amostra maior, a longo prazo. Assim, e somente assim, a construção de orientações mais robustas recomendando treinamentos intensos ao público com LLA será possível.

1. Young VR. Energy metabolism and requirements in the cancer patient. Cancer Res. 1977; 37(7):2336-47.

2. Linet, M.S., Ries, L.A., Smith, M.A., Tarone, R.E. and Devesa, S.S. (1999) Cancer surveillance series: recent trends in childhood cancer incidence and mortality in the United States. Journal of the National Cancer Institute 91, 1051-1058.

3. Huang, T.T. and Ness, K.K. (2011) Exercise interventions in children with cancer: a review. International Journal of Pediatrics, in press.

4. Lucia, A., Ramirez, M., San Juan, A.F., Fleck, S.J., García-Castro, J. and Madero, L. (2005) Intrahospital supervised exercise training: a complementary tool in the therapeutic armamentarium against childhood leukemia. Leukemia 19, 1334-1337.

5. Wolin, K.Y., Ruiz, J.R., Tuchman, H. and Lucia, A. (2010) Exercise in adult and pediatric hematological cancer survivors: an intervention review. Leukemia 24, 1113-1120.

6. San Juan, A.F., Chamorro-Vina, C., Mate-Munoz, J.L., Fernández del Valle, M., Cardona, C., Hernández, M., Madero, L., Pérez, M., Ramírez, M. and Lucia, A. (2008) Functional capacity of children with leukemia. International Journal of Sports Medicine 29, 163-167.

7. San Juan, A.F., Fleck, S.J., Chamorro-Vina, C., Mate-Munoz, J.L., García-Castro, J., Ramírez, M. and Madero, L. (2007a) Early phase adaptations to intrahospital training in strength and functional mobility of children with leukemia. Journal of Strength and Conditioning Research 21, 173-177.

8. San Juan, A.F., Fleck, S.J., Chamorro-Vina, C., Maté-Muñoz, J.L., Moral, S., Pérez, M., Cardona, C., Del Valle, M.F., Hernández, M., Ramírez, M., Madero, L. and Lucia, A. (2007b) Effects of an intrahospital exercise program intervention for children with leukemia. Medicine and Science in Sports and Exercise 39, 13-21.

9. Coombs A, Schilperoort H, Sargent B. The effect of exercise and motor interventions on physical activity and motor outcomes during and after medical intervention for children and adolescents with acute lymphoblastic leukemia: A systematic review. Crit Rev Oncol Hematol. 2020;152:103004.

10. Schoenfeld BJ. Is There a Minimum Intensity Threshold for Resistance Training-Induced Hypertrophic Adaptations? Sports Med 43, 1279–1288 (2013).

11. MacInnis MJ, Gibala MJ. Physiological adaptations to interval training and the role of exercise intensity. J Physiol. 2017; 595 (9): 2915-2930.

12. Koch, A.J., Potteiger, J.A., Chan, M.A., Benedict, S.H. and Frey, B.B. (2001) Minimal influence of carbohydrate ingestion on the immune response following acute resistance exercise. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism 11, 149-161.

13. Perondi MB, Gualano B, Artioli GG, et al. Effects of a combined aerobic and strength training program in youth patients with acute lymphoblastic leukemia. J Sports Sci Med. 2012;11(3):387-392.

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