A SUPLEMENTAÇÃO COM PICOLINATO DE CROMO AJUDA A MUDAR O PESO E A COMPOSIÇÃO CORPORAL?
Talvez esta não seja das estratégias nutricionais mais conhecidas, mas uma campanha de marketing enorme cercou o picolinato de cromo ao longo dos anos 90 e início dos anos 2000. Tal marketing amargou uma considerável queda desde então; contudo, nos últimos 4 anos, com a intensa retomada do interesse do público em geral em adquirir mudanças positivas na composição corporal, o picolinato de cromo voltou a ficar em evidência. Inclusive, caro leitor, uma busca na internet pelo termo ‘picolinato de cromo’ te levará a encontrar inúmeros fabricantes e fornecedores deste suplemento. Esta estratégia nutricional é comercializada com a ênfase justamente voltada à uma possível alteração da composição corporal. O presente post traz algumas informações acerca do picolinato de cromo, bem como evidências acerca da sua efetividade.
Cromo: o que é, necessidades diárias, funções e formas de obtenção
O cromo é um nutriente considerado essencial, e está presente em uma ampla variedade de alimentos como o levedo de cerveja, o queijo americano e os cogumelos; ovos, cereais, nozes e vegetais também são considerados fontes dietéticas de cromo [1]. Consórcios internacionais indicam que a ingestão diária adequada de cromo deve variar entre 20 a 30 mg [2]. Entretanto, alguns autores [3] já sugeriram que muitas pessoas nos Estados Unidos da América não estão ingerindo nem 50 pg·d-1 (picogramas por dia) de cromo! Isso indica que o consumo de suplementos contendo cromo pode ser uma estratégia importante com vistas a sanar possíveis deficiências dele. E nesse sentido, o cromo é comercializado predominantemente na forma de picolinato de cromo, embora também existam suplementos de nicotinato de cromo e cloreto de cromo [3]. A principal e aclamada ação do cromo está associada à regulação do peso corporal. Especificamente, evidências sugerem que ele poderia atuar como um inibidor de apetite [4], enquanto outras apontam que ele poderia acelerar o metabolismo [5], e assim, o gasto de calorias. Outros papéis fisiológicos também já foram atribuídos ao cromo, onde segundo relatos, o cromo também poderia aumentar a sensibilidade ao hormônio chamado insulina [6], ação essa que pode ser benéfica às pessoas com diabetes.
A suplementação de cromo e os seus efeitos sobre o peso e a composição corporal
Vocês devem estar se perguntando “Beleza, mas e aí, esse negócio funciona ou não?”. Ok, vamos às evidências. Um autor chamado Evans [1] foi o primeiro a relatar que a ingestão de cromo, na forma de picolinato de cromo, se mostrou uma estratégia capaz de diminuir a massa gorda em humanos. Nesse estudo, estudantes universitários sedentários e jogadores de futebol treinados receberam ou 200 µg de picolinato de cromo por dia ou placebo durante 40 a 42 dias, enquanto estavam em um programa de treinamento de força (vulga ‘musculação’). Aqueles indivíduos que treinaram e tomaram suplementos de cromo perderam mais massa gorda do que o grupo que treinou e tomou placebo. No entanto, a massa gorda nessa pesquisa foi estimada apenas a partir de medidas de circunferência usando fita métrica, e considerando que as alterações observadas foram pequenas, possíveis erros de medida podem ter influenciado os resultados.
Estudos subsequentes [7-11] não foram capazes de confirmar os resultados de Evans [1]. Esses estudos, diga-se de passagem, foram cuidadosa e rigorosamente controlados, se utilizando de técnicas mais sofisticadas para avaliar a composição corporal, e nenhuma alteração significante na composição corporal foi detectada [7,8]. A exemplo, em um destes estudos [11] foi concluído que, sob condições de consumo calórico controlado, a suplementação de cromo por mulheres saudáveis não influenciou o peso ou a composição corporal.
Apesar dos resultados acima mencionados, naturalmente qualquer pessoa mais insistente poderia indagar “Ok, em pessoas saudáveis o cromo pode não ter mostrado a sua eficácia, mas e em pessoas com sobrepeso ou obesidade? Será que a suplementação com cromo exerceria um efeito diferente?”. Se esta é a dúvida, trago aqui informações advindas da mais recente revisão quantitativa da literatura [12], isto é, que analisou as diferentes pesquisas sobre este assunto e calculou a magnitude da eficácia da suplementação de cromo sobre o peso e a composição corporal de indivíduos com sobrepeso e/ou obesidade. Após a análise dos 11 estudos incluídos na revisão, os autores identificaram uma “esplêndida” redução média de 0,5 kg de peso corporal com a utilização do picolinato de cromo por aproximadamente 15 semanas. É óbvio que estou usando o adjetivo “esplêndida” de maneira irônica, pois dado que os participantes estavam acima do peso, essa redução de 0,5 kg de peso corporal se traduz em cerca de 0,06% de perda de peso corporal desde o início da suplementação. A propósito, nenhuma redução estatisticamente significante foi detectada na gordura corporal.
Lições a serem obtidas sobre a suplementação de cromo e a sua aplicação para quem quer emagrecer
A partir do que foi apresentado no presente post, conclui-se que a suplementação de cromo não acarreta reduções estatisticamente significantes da gordura corporal, ao passo que a magnitude desses efeitos sobre o peso corporal é consideravelmente pequena e de relevância clínica incerta. Logo, as alegações de inúmeros fabricantes e fornecedores de que a suplementação de 200 µg de picolinato de cromo promove a perda de peso e/ou mudanças na composição corporal não são adequadamente sustentadas por evidências científicas. Como se estas informações já não fossem suficientemente desanimadoras, algumas das pesquisas analisadas na revisão [12] citada neste post relataram efeitos adversos com a suplementação de cromo. Dentre os efeitos adversos foram mencionados urticária, constipação, vertigem, fraqueza, náusea, vômito, tontura e dores de cabeça. Apesar destes efeitos colaterais terem sido observados de maneira mais frequente nas pesquisas que empregaram doses diária excedendo 1000 µg de picolinato de cromo, há a ressalva de que esses eventos adversos desapareceram quando o cromo foi retirado da rotina dos participantes e reapareceram quando ele foi reintroduzido. Ademais, estudos laboratoriais conduzidos em culturas de células sugerem ainda que o picolinato de cromo em excesso pode se acumular nas células e causar dano aos cromossomos [13]. Embora esse achado em cultura de células não tenha sido confirmado em estudos em humanos [14], a mensagem central aqui é que se deve ter cautela no uso de suplementos de cromo já que a segurança desta estratégia ainda não está devidamente atestada.
1. Evans GW. The effect of chromium picolinate on insulin controlled parameters in humans. Int J Biosoc Med Res 1989; 11: 163–180. 58.
2. Dietary Guidelines Advisory Committee DGAC MEETING 1 (2015: Materials and Presentations. History of Dietary Guidance Development in the United States and the Dietary Guidelines for Americans. Available from: https://health.gov/dietaryguidelines/2015-binder/meeting1/docs/Minutes_DGAC_Mtg_1_508.pdf.
3. Anderson RA, Kozlovsky AS. Chromium intake, absorption and excretion of subjects consuming self-selected diets. Am J Clin Nutr 1985; 41: 1177–1183.
4. Attenburrow MJ, Odontiadis J, Murray BJ, Cowen PJ, Franklin M. Chromium treatment decreases the sensitivity of 5-HT2A receptors. Psychopharmacology (Berl) 2002; 159: 432– 436.
5. Onakpoya IJ, Wider B, Pittler MH, Ernst E. Food supplements for body weight reduction: a systematic review of systematic reviews. Obesity 2011; 19: 239–244
6. Anderson RA. Chromium, glucose intolerance and diabetes. J Am Coll Nutr 1998; 17: 548–555.
7. Clancy SP, Clarkson PM, DeCheke ME, Nosaka K, Freedson PS, Cunningham JJ et al. Effects of chromium picolinate supplementation on body composition, strength, and urinary chromium loss in football players. Int J Sport Nutr 1994; 4: 142–153. 59.
8. Hallmark MA, Reynolds TH, DeSouza CA, Dotson CO, Anderson RA, Rogers MA. Effects of chromium and resistive training on muscle strength and body composition. Med Sci Sports Exerc 1996; 28: 139–144. 60.
9. Hasten DL, Morris GS, Ramanadham S, Yarasheski KE. Isolation of human skeletal muscle myosin heavy chain and actin for measurementoffractionalsynthesisrates. AmJPhysiol1998;275: E1092–E1099. 61.
10. Lukaski HC, Bolonchuk WW, Siders WA, Milne DB. Chromium supplementation and resistance training: effects on body composition, strength, and trace element status of men (see comments). Am J Clin Nutr 1996; 63: 954–965.
11. Lukaski HC, Siders WA, Penland JG. Chromium picolinate supplementation in women: effects on body weight, composition, and iron status. Nutrition 2007; 23: 187–195. 63.
12. Onakpoya I, Posadzki P, Ernst E. Chromium supplementation in overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Obes Rev. 2013;14(6):496-507.
13. Stearns DM, Belbruno JJ, Wetterhahn KE. A prediction of chromium(III) accumulation in humans from chromium dietary supplements. FASEB J 1995; 9: 1650–1657. 64.
14. McCarty MF. Chromium(III) picolinate (letter). FASEB J 1996; 10: 365–369.