Pular para o conteúdo

EXISTE DIFERENÇA NOS RESULTADOS OBTIDOS DE DIFERENTES ADIPÔMETROS?

Por que investir tempo numa avaliação de composição corporal?

Atualmente, inúmeras são as razões pelas quais as pessoas buscam mudanças na sua composição corporal. Por exemplo, pensando num contexto atlético, mudar a composição corporal no sentido de aumentar a massa magra pode ter consequências positivas importantes para o desempenho e para a prevenção de lesões [1]. Da mesma forma, pensando num contexto terapêutico, mudar a composição corporal no sentido de diminuir a gordura corporal também se faz interessante devido à associação existente da gordura corporal com diversas alterações metabólicas. Por exemplo, é muito bem conhecido que a quantidade de tecido adiposo e a sua distribuição estão associadas a elevados valores de pressão arterial, dislipidemia e diabetes, os quais contribuem para a elevação do risco de distúrbios cardiovasculares [2,3]. Logo, a determinação da composição corporal tem inúmeras aplicabilidades na prática clínica e esportiva.

Com isso, caro leitor, se a mudança de composição corporal é um objetivo que você possui, certamente é necessário que você busque métodos capazes de avaliar, de forma precisa e confiável, a quantidade de gordura ou massa magra em relação à massa corporal total. Aliás, somente por meio da avaliação deste parâmetro você conseguirá concluir se o programa de exercícios e/ou a dieta que você adotou em sua rotina está(ão) de fato estão funcionando, ou se já chegou a hora destes sofrerem um reajuste pois já deixaram de surtir o efeito desejado. Existe uma grande variedade de técnicas para avaliar a composição corporal, as quais variam substancialmente em função de seu custo e acessibilidade [4]. Dentre as técnicas mais práticas e baratas (e que mais observamos em clubes, academias e clínicas) está a medida da espessura das dobras cutâneas, através de um instrumento chamado adipômetro. Esse post discorrerá brevemente sobre este instrumento, destacando a influência do uso de diferentes marcas sobre os resultados obtidos.

Do que se trata a avaliação de composição corporal em si? E a técnica de dobras cutâneas?

A avaliação da composição corporal é tradicionalmente realizada utilizando-se um modelo de dois compartimentos. Dois compartimentos? O que isso quer dizer? Calma, eu te explicarei: Nesse modelo as diversas técnicas procuram fracionar o corpo humano em dois componentes, 1) a massa corporal magra (ou massa livre de gordura); e 2) a massa gorda (ou gordura corporal) [5]. A massa magra engloba todos os tecidos livres de gordura não essencial (como os músculos, ossos,…), enquanto a massa gorda envolve todo o conteúdo de gordura corporal, localizado em sua grande maioria nas regiões subcutânea e visceral [6]. Mesmo fornecendo apenas uma medida indireta da gordura subcutânea, a medida da espessura das dobras cutâneas, através do uso do adipômetro, se encaixa como um método bicompartimental, ou seja, os seus resultados podem fornecer informações sobre a massa gorda e a massa livre de gordura de uma pessoa. Por meio de equações específicas, a somatória das diferentes dobras cutâneas permitirá o cálculo de um fator chamado ‘densidade corporal’, e em seguida, da gordura corporal total [7]. Assim, a partir desse modelo bicompartimental, se você descobre a massa gorda, naturalmente a massa livre de gordura corresponde ao valor que está faltando para completar o peso corporal total. Vixe, ficou confuso? Não esquenta, vamos falar melhor da natureza desse método num outro post. Mesmo assim, faço questão de destacar aqui que o adipômetro empregado pela técnica de dobras cutâneas não possui a capacidade de atingir a gordura visceral, enquanto a sua estimativa da gordura subcutânea, conforme já mencionado, é meramente indireta visto que o adipômetro também não possui a capacidade de separar o tecido adiposo subcutâneo dos tecidos epitelial e conjuntivo que estão acima dele. Estas limitações têm servido como sustentação das críticas à acurácia deste método na mensuração da composição corporal. Honestamente, elas fazem todo o sentido, mas mais uma vez, vamos deixar a discussão acerca da natureza da técnica de dobras cutâneas em si para um outro post, e vamos ao que interessa: a influência de diferentes adipômetros sobre os resultados obtidos com a técnica.

Adipômetros e diferentes modelos

Nesse sentido, se você buscar por marcas e tipos de adipômetros, caro leitor, certamente você irá se deparar com a existência de diversos adipômetros. Dentre os que mais se nota a utilização no meio científico internacional estão o adipômetro Lange (norte-americano) e o Harpenden (inglês) [8,9]. Já no Brasil, o adipômetro Cescorf, fabricado no próprio país, é um dos que mais recebeu aceitação por parte de usuários da técnica de dobras cutâneas e por pesquisadores da área de composição corporal ao longo das duas últimas décadas. O Cescorf apresenta design e mecânica semelhantes aos do Harpenden, com pressão constante exercida em qualquer abertura de suas mandíbulas de aproximadamente 10g/mm2 e área de contato de 90 mm2, segundo o fabricante. Já a área de contato da mandíbula do Lange é 3 vezes menor, isto é, de 30mm2 para a mesma pressão constante de 10g/mm2. Pressão constante? Área de contato? Pelo amor de Deus, não fala grego! Ok, pode deixar, vou traduzir: o que eu estou querendo dizer é que, como a pressão reflete a relação entre a força e a área de contato, uma diferença de três vezes na área de contato, com a pressão sendo semelhante, faz com que a força a ser exercida para abrir as hastes do Cescorf seja cerca de três vezes maior do que a aplicada no Lange. Esse tipo de diferença ocorre em relação ao Harpenden também. Todas essas informações sugerem que a compressão das dobras cutâneas provavelmente será diferente entre estas diferentes marcas de adipômetro, assim como o tempo de finalização de leitura do adipômetro para cada dobra, o que deveria acarretar a obtenção de resultados (espessuras) diferentes das dobras entre os diferentes adipômetros. Será?

Existem diferenças nos resultados obtidos com diferentes adipômetros?

Numa das pesquisas mais famosas sobre este assunto conduzidas em solo nacional, pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) recrutaram 259 homens jovens e os submeteram à análise de composição corporal através do método de dobras cutâneas, comparando os resultados obtidos entre diferentes adipômetros. Como os pontos de acúmulo de gordura subcutânea não se apresentam de forma uniforme, faz-se necessária a mensuração da espessura de dobras cutâneas em diferentes pontos anatômicos. Desse modo, detalhadamente, as espessuras de 09 dobras cutâneas foram mensuradas (abdominal, supra-ilíaca, subescapular, tricipital, bicipital, axilar média, peitoral, perna e coxa) por um único avaliador utilizando os compassos Lange e Cescorf, os quais tinham precisão de 1,0 e 0,1 mm, respectivamente. A partir da obtenção dos valores de espessura das 09 dobras cutâneas, foi calculada a densidade corporal, empregando-se a equação preditivas proposta por Durnin & Womersley [10]. Uma vez obtida a densidade corporal com essa equação inicial, foi calculada a gordura corporal através de uma segunda equação, neste caso, a de Siri [11]. Equações de mais, fácil de confundir, né? É, admito que estes cálculos são difíceis de serem feitos sem organização e uma calculadora ao lado.

Os resultados contendo os valores individuais da espessura de cada uma das 09 dobras cutâneas mensuradas pelos adipômetros Lange e Cescorf podem ser observados na tabela abaixo. Os autores detectaram diferenças significantes na espessura de todas as dobras cutâneas na comparação entre os dois adipômetros, com valores maiores para o de Lange. Estas diferenças provocadas pela utilização dos adipômetros Lange e Cescorf culminaram em diferenças significantes na estimativa da gordura corporal através das equações de predição.

Qual é a importância e aplicabilidade destas informações?

Ou seja… sim! Apesar de utilizar um mesmo avaliador e os mesmos avaliados, sob as mesmas condições, a utilização de adipômetros diferentes pode sim resultar em valores diferentes de espessura de dobras cutâneas, e portanto, em discrepância no resultado de composição corporal entre dois adipômetros diferentes. Apesar de eu estar me valendo apenas dos resultados deste grupo da UEL para discorrer sobre este assunto, outras pesquisas que surgiram posteriormente a ela apresentaram resultados em extrema concordância com os da UEL [12,13]. De modo a deixar mais claro o quão grave estes resultados podem significar, a partir deles é possível que uma simples troca de adipômetro, de uma marca para a outra, entre uma avaliação e reavaliação, acabe gerando erros/variações de mensuração. Com isso, mesmo após longas semanas de muito empenho e dedicação no programa de atividade física ou e/ou na dieta, a simples troca de adipômetro não te fornecerá segurança o suficiente para afirmar se aquele novo valor obtido após a avaliação, seja para melhor ou para pior (ou a falta de mudança, por que não?) de fato é reflexo da eficiência (ou falta de eficiência) do programa alimentar e/ou de exercícios que você participou, ou se ele foi ocasionado pela variação proporcionada pela troca de adipômetros. Sabe aquela “pulguinha” atrás da orelha que te deixa em dúvida? Pois é, ela vai continuar ali e não vai sair até que você realize uma nova avaliação mantendo/padronizando o mesmo instrumento.

Em resumo, a discussão deste post indica que a estimativa da composição corporal pode ser diretamente impactada pela marca de adipômetro sendo utilizado, o que parece estar relacionado com a precisão, design (superfície de contato) e mecânica do instrumento. Logo, ressalta-se que o monitoramento das possíveis alterações na composição corporal, geradas ao longo do tempo, também pode ser comprometido com o uso de diferentes adipômetros em momentos distintos. Portanto, para se ter mais certeza das informações obtidas durante a avaliação de composição corporal com o método de dobras cutâneas, torna-se indispensável a padronização da marca e instrumento sendo utilizados nas avaliações e reavaliações.

1. Kraemer WJ, Ratamess NA. Fundamentals of resistance training: progression and exercise prescription. Med Sci Sports Exerc. 2004;36(4):674–88.

2. Walton C, Lees B, Crook D, Godsland IF, Stevenson JC. Relationships between insulin metabolism, serum lipid profile, body fat distribution and blood pressure in healthy men. Atherosclerosis. 1995; 118(1):35-43.

3. von Eyben FE, Mouritsen E, Holm J, Montvilas P, Dimcevski G, et al. Intra-abdominal obesity and metabolic risk factors: a study of young adults. Int J Obes. 2003; 27(8):941-9.

4. Lukaski HC. Methods for the assessment of human body composition: traditional and new. Am J Clin Nutr. 1987; 46(4):537-56.

5. Warner ER, Fornetti WC, Jallo JJ, Pivarnik JM. A skinfold model to predict fat-free mass in female athletes. J Athl Train 2004; 39(3):259–262.

6. Anderson GS. Body fat testing: Weighing the options. Fitness Train Can 2003; 3 (4):20-23.

7. Martin AD, Ross WD, Drinkwater DT, Clarys JP. Prediction of body fat by skinfold caliper: assumptions and cadaver evidence. Int J Obes Relat Metab Disord 1985;9:31-9.

8. Sloan AW, Shapiro MA. Comparison of skinfold measurements with three standard calipers. Hum Biol 1972;44:29-36. 7.

9. Whitehead JR. A study of measurement variation among different skinfold calipers. Br J Phys Educ 1990;7:10-4.

10. Durnin JVGA, Womersley J. Body fat assessed from total body density and its estimation from skinfold thickness: measurements on 481 men and women aged from 16 to 72 years. Br J Nutr 1974;32:77-97.

11. Siri WE. Body composition from fluid spaces and density: analysis of methods. In: Brozek J, Henschel A, editors. Techniques for measuring body composition. Washington: National Academy of Science, 1961; 223-44.

12. Barroso, J. B., Silva, C. L. de A., Façanha, C. C. dos R., Gomes, C. R. M., & Materko, W. (2019). Comparação entre diferentes compassos de dobras cutâneas para estimativa da gordura corporal relativa. RBNE – Revista Brasileira De Nutrição Esportiva, 13(80), 543-549.

13. Borgs JH, Ribeiro RR, da Silva AC, Pegoraro M, Santos KD, Minatt G. Comparação entre diferentes instrumentos e equações preditivas de análise da composição corporal. Arquivos de Ciências do Esporte 2013, 1(2), 70-74

SIGA O PROFESSOR NO INSTAGRAM

error: Esse conteúdo é protegido. Para mencionar o texto, solicite permissão por e-mail clicando na aba CONTATO.