EXERCÍCIO FÍSICO: UM REMÉDIO PARA A DEPRESSÃO PÓS-PARTO!
Esse post vai de especial encontro às mulheres gestantes e àquelas que pretendem engravidar, mas também serve de suporte para os companheiros e/ou cuidadores destas. Especificamente, discutiremos um pouco sobre a depressão pós-parto e o papel do exercício físico no tratamento deste problema.
“Depressão pós-parto”? Explica aí sobre essa condição!
A depressão pós-parto é a complicação mais comum da gravidez, e apesar de receber a classificação ‘pós-parto’, ela é definida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como qualquer transtorno depressivo que ocorre desde o início da gravidez até as 4 semanas seguintes ao parto [1]. As estimativas variam entre si, e enquanto algumas delas apontam que este transtorno afeta 13 milhões de mulheres anualmente, outras indicam que entre 3% e 15% das mulheres experimentam um episódio depressivo durante a gravidez ou nas semanas/meses após o parto [2], sendo que cerca de 50% desses episódios começam antes do parto e ocorrem em mulheres que sofreram um aborto espontâneo [2]. Embora muitas mulheres apresentem sintomas leves, deve-se suspeitar de depressão pós-parto quando os sintomas são graves e duram mais de 2 semanas. Tais sintomas podem incluir: ataques de ansiedade, choro, perda de interesse pela vida, insegurança, pensamentos obsessivos inadequados, irritabilidade, fadiga, culpa, medo de prejudicar o bebê e relutância em amamentar (ou seja, redução da qualidade de vida de uma maneira geral!) [3-5].
E “para ajudar” a situação toda, após a depressão pós-parto, o risco de episódios futuros de depressão em um período de 5 anos é dobrado [3]! Além disso, a depressão pós-parto também tem uma influência negativa na relação materno-infantil, incluindo privação de sono, ansiedade sobre a paternidade e os cuidados com o bebê, crise de identidade, sensação de perda de controle sobre a vida e ansiedade devido à falta de apoio de um parceiro sexual/romântico [4]. Inclusive, a comprometida interação mãe-bebê que se instaura (isto é, as mães têm menor probabilidade de serem afetuosas com o seu bebê) pode ajudar a explicar o prejudicado desenvolvimento emocional e cognitivo de bebês com mães deprimidas [5]. Bom, em virtude do mencionado, penso que está mais do que clara a imprescindível necessidade de se buscar e examinar a efetividade de estratégias para o tratamento da depressão pós-parto. O uso de antidepressivos consta entre as possíveis estratégias, no entanto, pode haver relutância por parte das mulheres em tomar antidepressivos após o parto, principalmente se estiverem amamentando [6]. Terapias cognitivo-comportamentais podem ser uma alternativa eficaz, mas as listas de espera podem ser longas. Com isso, a estratégia que tem ganhado cada vez mais atenção como possível ferramenta terapêutica na depressão pós-parto é o exercício físico. Isso porque o exercício já é reconhecido como uma opção útil de tratamento para a depressão na população em geral, mostrando certas vantagens quando comparado aos tratamentos tradicionais: é gratuito, acessível e sem estigma ou efeitos colaterais [7].
Exercício físico: um tratamento de bom custo-benefício para a depressão pós-parto
Pensando nisso, esse post trouxe para vocês as informações provenientes de uma revisão quantitativa [8], a qual se dedicou justamente a examinar as informações de diferentes pesquisas que investigaram a influência do exercício físico sobre os sintomas depressivos em mulheres com depressão pós-parto. A custo de curiosidade, esta é uma das revisões mais recentes sobre este assunto [8], tendo sido conduzida numa colaboração entre pesquisadores chilenos e espanhóis. Ao todo, na revisão foram examinadas e extraídas as informações de 12 pesquisas diferentes, as quais juntas recrutaram um total de 932 mulheres, estando estas mulheres grávidas ou tendo dado à luz há no máximo 1 ano. As pesquisas empregavam os mais diversificados métodos de exercício entre si, tais como alongamentos, exercícios de musculação, exercícios de Pilates e Yoga, e caminhadas. A frequência e intensidade das sessões de exercício também variou bastante entre as 12 pesquisas examinadas. Já os sintomas depressivos foram avaliados tanto pré- quanto pós-treinamento nas diferentes pesquisas através de escalas específicas de avaliação de depressão.
Interessantemente, a análise estatística empregada pelos autores sobre os resultados das diferentes pesquisas mostrou que programas de treinamento físico de fato são ferramentas eficazes no controle dos sintomas depressivos [8]! E não para por aí; também foi registrado que quanto maiores os níveis de depressão na mulher, maiores parecem ser os efeitos do treinamento no tratamento dos sintomas depressivos! Por fim, as análises também mostraram que as características dos programas de treinamento, em termos de frequência e intensidade, não tiveram grande impacto na eficácia dos programas de treinamento como um todo sobre os sintomas depressivos pós-parto [8]. Ou seja, as conclusões publicadas por esta revisão de 2017 mostram que, no fim das contas, as recomendações para a saúde geral delineadas pelo Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia [9] não estavam tão erradas ao terem estabelecido, em 2002, que gestantes e puérperas sem complicações deveriam participar de pelo menos 30 minutos de exercício físico em intensidade moderada, na maioria dos dias da semana, com vistas a minimizar sintomas depressivos. A diferença de lá para cá é que agora realmente há mais embasamento científico para tal recomendação de tal órgão (risada debochada…).
Como explicar os efeitos positivos do exercício físico na depressão pós-parto?
Alguns fatores podem ajudar a explicar este efeito terapêutico do treinamento físico sobre a melhora dos sintomas depressivos pós-parto. Dentre eles, ressalta-se a influência emocional que o exercício físico exerce sobre os aspectos sociais e ambientais que podem melhorar a autoconfiança da mulher e desviar a atenção de pensamentos negativos [10]. Além disso, mudanças na forma e imagem corporal que o exercício também exerce podem ter uma influência positiva sobre os sentimentos de autoestima [11]. Alternativamente, o efeito terapêutico do exercício físico na depressão pós-parto pode incluir mecanismos bioquímicos e fisiológicos que afetam a qualidade do sono, os sintomas depressivos e a memória. Esses mecanismos incluem o aumento da secreção de endorfinas circulantes no sangue (como a noradrenalina e a serotonina) e uma melhora na eficiência da neurotransmissão, bem como um aumento da temperatura central e do fluxo sanguíneo cerebral [12]. Tais mecanismos, entretanto, necessitam ser mais bem esclarecidos.
Considerações finais sobre a inclusão de programas de exercício físico para pacientes com depressão pós-parto
Finalizando, as informações desse post têm implicações clínicas e práticas importantes, pois reforçam a eficácia do exercício físico no combate aos sintomas depressivos pós-parto. Consequentemente, essas informações servem como um suporte para a recomendação e aconselhamento de mulheres grávidas e novas mamães a se engajarem em programas de exercícios como uma estratégia eficaz e segura para alcançar melhor bem-estar psicológico e evitar sintomas depressivos pós-parto. Mas claro, ao projetarem o engajamento em programas de exercício físico, mamães e seus treinadores devem considerar a inclusão de exercícios que sejam agradáveis e convenientes, com vistas a estimular a adesão e aderência ao programa de treinamento. A intensidade precisa ser adaptada aos níveis reduzidos de condicionamento físico das mulheres pós-parto, pois essas mulheres estão lidando com demandas excepcionais de cuidar de seus bebês e de sua família [13].
1. Da Costa D, Drista M, Rippen N, Lowensteyn I, Khalife S. Health-related quality of life in postpartum depressed women. Arch Womens Ment Health. 2006;9:95‐102
2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5®). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2013.
3. Cooper P, Campbell EA, Day A, Kennerley H, Bond A. Nonpsychotic psychiatric disorder after childbirth. A prospective study of prevalence, incidence, course and nature. Br J Psychiatry. 1988;152:799‐806.
4. Seyfried LS, Marcus SM. Postpartum mood disorders. Int Rev Psychiatry. 2003;15:231‐242.
5. Lee DT, Chung TK. Postnatal depression: an update. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2007;21:183‐191
6. Turner KM, Sharp D, Folkes L, Chew-Graham C. Women’s views and experiences of antidepressants as a treatment for postnatal depression: a qualitative study. Fam Pract. 2008;25(6):450–455.
7. Teychenne M, York R. Physical activity, sedentary behavior, and postnatal depressive symptoms: a review. Am J Prev Med. 2013;45:217‐227.
8. Poyatos-León R, García-Hermoso A, Sanabria-Martínez G, Álvarez-Bueno C, Cavero-Redondo I, Martínez-Vizcaíno V. Effects of exercise-based interventions on postpartum depression: A meta-analysis of randomized controlled trials. Birth. 2017;44(3):200-208.
9. ACOG Committee on Obstetric Practice. Committee opinion. Number 267. Exercise during pregnancy and the postpartum period. Obstet Gynecol. 2002;99:171‐173.
10. Knapen J, Vancampfort D, Moriën Y, Marchal Y. Exercise therapy improves both mental and physical health in patients with major depression. Disabil Rehabil. 2015;37:1490‐1495.
11. Daley AJ, MacArthur C, Winter H. The role of exercise in treating postpartum depression: a review of the literature. J Midwifery Womens Health. 2007;52:56‐62.
12. Yim IS, Tanner Stapleton LR, Guardino CM, Hahn-Holbrook J, Dunkel Schetter C. Biological and psychosocial predictors of postpartum depression: systematic review and call for integration. Annu Rev Clin Psychol. 2015;11: 99‐137.
13. Petrov Fieril K, Glantz A, Fagevik Olsen M. The efficacy of moderate‐to‐vigorous resistance exercise during pregnancy: a randomized controlled trial. Acta Obstet Gynecol Scand. 2015;94:35‐42