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FISICULTURISTAS MODERNOS: ONDE ESTÃO ERRANDO E ACERTANDO EM SUAS DIETAS?

Ao contrário da maioria dos esportes, o Fisiculturismo é julgado com base na aparência e estrutura físicas, nas quais as colocações superiores exigem altos níveis de massa muscular e simetria combinados com baixos níveis de gordura corporal. E para alcançar resultados assim, historicamente fisiculturistas têm utilizado estratégias diferentes [1,2]. Tais estratégias envolvem práticas rigorosas de exercícios, como o treinamento aeróbio e de musculação; bem como manipulações alimentares, incluindo restrição calórica e suplementos alimentares que correspondem à fase determinada do ciclo competitivo em que o atleta se encontra [3,4]. Esse post se dedicará a abordar algumas destas estratégias dietéticas utilizadas por este público de atletas, sobretudo aqueles das categorias mais modernas do Fisiculturismo.

Fisiculturismo e os seus ciclos de treinamento

As duas fases principais do ciclo competitivo de um fisiculturista são denominadas “bulking” e “cutting“. Nós não temos uma boa tradução literal dessas palavras, se é isso que você está se perguntando. O mais próximo que podemos chegar é “aumentando/avolumando” para bulking, e “cortando” para cutting. O bulking ocorre no início da preparação para a competição, que normalmente se estende até aproximadamente 12 a 16 semanas antes da competição. Durante esta fase, a dieta do atleta geralmente contém mais calorias, derivadas principalmente de um maior consumo de carboidratos e proteínas [1,2]. Por outro lado, o cutting é iniciado aproximadamente 1 mês antes da competição. Durante ele, os atletas costumam usar dietas hipocalóricas (isto é, deficientes em energia) e nutricionalmente desequilibradas, em um esforço para reduzir a gordura corporal e ressaltar a definição muscular [5]. No entanto, a adoção dessas estratégias alimentares é comumente guiada pela experiência prática do fisiculturista, pelo seu coach e/ou pelo “conhecimento da academia” na ausência de evidências científicas, o que pode predispor esse atleta a consequências indesejáveis à sua saúde ou ao seu desempenho[6].

Hábitos alimentares no Fisiculturismo – o que a literatura permite afirmar?

Você deve estar pensando “Ok, se a adoção das estratégias alimentares pelos fisiculturistas acaba sendo mais empírica, vamos até a literatura científica checar o que ela pode nos ajudar a entender e concluir sobre estas práticas”! Sem dúvida, esta seria uma ótima ideia, eu faria a mesma coisa. Mas curiosamente a literatura científica atual examinando a ingestão alimentar de fisiculturistas é limitada por pouquíssimos estudos, e, portanto, as estratégias alimentares específicas usadas por esses atletas, bem como a justificativa lógica para o uso delas, permanecem pouco compreendidas [6]. Já não bastasse este problema, temos ainda que destes poucos estudos existentes, a maioria falhou em especificar a fase de treinamento dos atletas ou em relatar o consumo de suplementos alimentares desta população. Por fim, a crescente popularidade do Fisiculturismo levou à criação de novas categorias, como a Men’s Physique (voltado para atletas do sexo masculino que buscam um físico com aparência mais atlética, em que a beleza física, a simetria muscular e o cuidado estético, além de presença de palco, são os principais determinantes na avaliação dos juízes). E se as categorias mais antigas já sofriam com a pouca quantidade de informações a respeito das condutas nutricionais de fisiculturistas, as categorias mais modernas então (como a Men’s Physique) nem se fale!!

Hábitos alimentares nas categorias modernas do Fisiculturismo – onde estão errando e onde estão acertando

Pensando neste problema, o nosso grupo de estudos e pesquisas decidiu conduzir uma pesquisa para resolvê-lo. Nesta pesquisa, por meio do uso de diários alimentares, nós avaliamos a ingestão alimentar e o uso de suplementos alimentares de 16 atletas competindo na categoria moderna Men’s Physique durante o bulking e o cutting [7]. Mas não paramos por aí! Nós também buscamos compreender a justificativa lógica que os atletas se baseavam para adotar as práticas nutricionais nestes períodos do ciclo competitivo, bem como as fontes de educação que ensinavam essas práticas para eles [7]. E sim, isso é importante! Afinal, informações como as que buscamos solucionar podem fornecer aos profissionais de Nutrição e Ciências do Esporte uma melhor compreensão das práticas atualmente usadas no Fisiculturismo moderno, o que, por sua vez, pode ajudar a desenvolver prescrições para que esse público obtenha resultados mais efetivos e com maior segurança!!

E o que nós encontramos de resultados? Bom, várias surpresas! Pensando nos macronutrientes, somente o consumo de gorduras estava dentro das recomendações internacionais [8] durante o bulking e o cutting.

Em relação ao consumo de carboidratos, bulking, quase todos os atletas autorrelataram que estavam consumindo quantidades elevadas deste nutriente, sob a justificativa de que essa conduta seria algo importante para manter um aporte adequado de calorias/energia, e assim, poderem aguentar aumentos no volume e na intensidade do treinamento durante esta fase do ciclo competitivo que é direcionada para o aumento de massa muscular [7]. Ora, a justificativa deles faz todo o sentido [9]! O grande problema é que não foi isso que nós identificamos na análise dos diários alimentares… enquanto eles autorrelatavam um elevado consumo de carboidratos durante o bulking, nós identificamos que o consumo diário deste nutriente estava, em média, quase pela metade da recomendação internacional [10]. Ou seja, os caras estavam fazendo praticamente uma dieta low-carb durante o bulking! Isso é particularmente preocupante considerando que durante o bulking os atletas podem incluir exercícios aeróbios como parte de seu protocolo de treinamento diário, o que por sua vez pode promover uma maior diminuição de uma ‘moeda energética’ dentro do músculo chamado glicogênio, e com isso, comprometer ainda mais o desempenho no treino de musculação [11]. Logo, a adoção de dietas low-carb durante o bulking, como nós observamos, deve ser considerada contraproducente para alcançar os objetivos desta fase! E como se não fosse suficiente, durante o cutting, todos os atletas relataram diminuir o consumo deste nutriente, justificando a necessidade de melhor ‘definição muscular’ em períodos próximos à competição [7] (o que na minha cabeça também faz sentido! Afinal, carboidratos levam a um aumento de glicogênio muscular, e o glicogênio tem afinidade por água; logo, restringir carboidratos, pode levar à desidratação no músculo, e assim, à sua “definição”). Entretanto, a nossa análise dos diários alimentares mostrou que apenas metade dos atletas de fato diminuiu o consumo de carboidratos do bulking para o cutting [7].

Não para por aí! A ingestão média de proteínas por dia que nós identificamos na dieta dos participantes durante o bulking foi de 4,16 gramas de proteína por quilograma de peso corporal (g/kg). Essa ingestão proteica excede substancialmente as evidências recentes mostrando que o consumo de proteínas além de 1,62 g/kg por dia não produz qualquer efeito adicional sobre os ganhos de massa muscular induzidos pela musculação [10,12]. E vejam que nós nem incluímos na análise as proteínas advindas dos suplementos! Portanto, pode-se inferir que todos os atletas tinham um consumo de proteína muito acima de suas necessidades para sustentar a construção muscular durante o bulking. Por outro lado, durante o cutting, apesar da observada queda no consumo proteico diário, a ingestão desse nutriente ainda assim ficou calculada em 3,56 g/kg por dia. Isso não é de todo ruim já que trabalhos recentes [13] indicam que uma ingestão proteica diária elevada, na ordem de 2,3 a 3,1 g/kg por dia, é potencialmente benéfica para manter a massa muscular durante períodos de restrição energética, como ocorre no cutting. Portanto, o alto consumo de proteínas adotado pelos atletas durante o cutting, como o que nós observamos, pode ser uma estratégia interessante para evitar a perda de massa muscular.

Nós também detectamos que os suplementos proteicos eram os suplementos usados com mais frequência pelos atletas deste estudo. Dada a ingestão extremamente alta de proteínas que eles tinham advinda da própria alimentação, os benefícios que este público teria em consumir suplementos proteicos é altamente questionável. Aminoácidos, como a glutamina e os BCAA (branched-chain amino acids – aminoácidos de cadeia ramificada), ficaram em segundo lugar entre os suplementos mais utilizados pelos fisiculturistas modernos, uma conduta mais uma vez extremamente questionável já que o corpo de evidências científicas atual não apoia o uso de glutamina [14] ou BCAA [15] para melhorar a composição corporal. Além disso, se pensarmos bem, qualquer potencial benefício da glutamina e do BCAA deveria ser desprezível, considerando a ingestão exacerbadamente alta de proteínas que os atletas já tinham por meio da dieta aliado ao uso de suplementos proteicos. Suplementos multivitamínicos e complexos de minerais ficaram em terceiro lugar dentre os suplementos mais utilizados, conduta essa também bastante questionável já que a análise dos diários alimentares identificou que a maioria dos atletas estavam com o consumo de vitaminas e minerais excedendo consideravelmente as recomendações internacionais8. Por outro lado, apenas a minoria dos atletas relatou fazer uso da suplementação com creatina ou cafeína, os quais estão entre os poucos suplementos nutricionais cientificamente reconhecidos por melhorar o desempenho na musculação [16,17]

Tantos hábitos alimentares inadequados... por que? De onde os fisiculturistas modernos estão extraindo as informações?

Nossa, quanta informação, né!? Mas acho que deu para perceber, de uma maneira geral, que os resultados da nossa pesquisa sugerem que há um motivo de preocupação com algumas das abordagens nutricionais usadas pelos fisiculturistas modernos, já que uma parte delas está fora das diretrizes baseadas em evidências. Mas por que isso estaria acontecendo? O que explicaria essa inadequação alimentar e até a inconsistência entre a prática alimentar de fato executada e o autorrelato desta prática? Bom, não precisamos ir muito longe para responder a mais esta dúvida. Ao analisarmos as fontes educacionais dos atletas, constatamos que a maioria dos atletas relatou autogerenciar sua dieta e suplementos sob a premissa de que eles tinham treinamento no campo da Educação Física, enquanto alguns recorreram a coaches de Fisiculturismo para esse fim. Sites de Fisiculturismo e condicionamento físico, bem como fóruns de treinamento também foram relatados como fontes de educação nutricional. Ou seja, nutricionistas esportivos não foram identificados como fontes primárias de educação/informação pela maioria dos atletas pesquisados, e este é o principal motivo que pode ajudar a explicar os desvios de práticas baseadas em evidências que nós identificamos, como as dietas low-carb e de alta proteína nos diferentes ciclos competitivos, o consumo excessivo de muitos micronutrientes, o uso de vários suplementos nutricionais desnecessários ou sem suporte científico e, principalmente, a inconsistência entre os resultados dos diários alimentares e a análise do autorrelato dos atletas

Reflexões finais e perspectivas futuras a respeito da alimentação no Fisiculturismo moderno

Fechando esse post, podemos dizer que apesar de algumas estratégias alimentares usadas por fisiculturistas da categoria Men’s Physique sejam consistentes com a prática baseada em evidências, a maioria delas pode ser considerada I) extremista; II) carente de suporte científico; e III) e incapaz de refletir a intenção autorreferida dos atletas. Isso pode ser explicado, pelo menos em grande parte, pelas fontes de informação dos fisiculturistas, as quais se baseiam mais em experiências e anedotas pessoais do que em pesquisas e conselhos de profissionais de Nutrição treinados. Portanto, essas descobertas sugerem que os atletas das categorias modernas de Fisiculturismo se encaixam no perfil de indivíduos que podem se beneficiar substancialmente da assistência de nutricionistas para ajudar a gerenciar seu planejamento dietético e de suplementos alimentares. Se você é fisiculturista ou pretende se inserir na área, busque já o auxílio de um nutri!

1. Helms ER, Aragon AA, and Fitschen PJ. Evidence-based recommendations for natural bodybuilding contest preparation: Nutrition and supplementation. J Int Soc Sports Nutr 11: 20, 2014.

2. Helms ER, Fitschen PJ, Aragon AA, Cronin J, and Schoenfeld BJ. Recommendations for natural bodybuilding contest preparation: Resistance and cardiovascular training. J Sports Med Phys Fitness 55: 164–178, 2015.

3. Bazzarre TL, Kleiner SM, and Litchford MD. Nutrient intake, body fat, and lipid profiles of competitive male and female bodybuilders. J Am Coll Nutr 9: 136–142, 1990.

4. van der Ploeg GE, Brooks AG,Withers RT, Dollman J, Leaney F, and Chatterton BE. Body composition changes in female bodybuilders during preparation for competition. Eur J Clin Nutr 55: 268–277, 2001.

5. Gentil P, de LiraCAB, PaoliA,Dos Santos JAB, da SilvaRDT, Junior JRP, et al. Nutrition, pharmacological and training strategies adopted by six bodybuilders: Case report and critical review. Eur J TranslMyol 27: 6247, 2017.

6. Mitchell L, Hackett D, Gifford J, Estermann F, and O’Connor H. Do bodybuilders use evidence-based nutrition strategies to manipulate physique? Sports (Basel) 5: 76, 2017.

7. Lenzi JL, Teixeira EL, de Jesus G, Schoenfeld BJ, de Salles Painelli V. Dietary Strategies of Modern Bodybuilders During Different Phases of the Competitive Cycle [ahead of print]. J Strength Cond Res 2019.

8. Institute of Medicine. Dietary Reference Intakes. In: Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrates, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein and Amino Acids. Washington, DC: National Academy Press, 2002. pp. 1320–1331.

9. Haff GG, Lehmkuhl MJ, McCoy LB, and Stone MH. Carbohydrate supplementation and resistance training. J Strength Cond Res 17: 187–196, 2003.

10. Thomas DT, Erdman KA, and Burke LM. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and athletic performance. J Acad Nutr Diet 116: 501–528, 2016.

11. Leveritt M and Abernathy PJ. Effects of carbohydrate restriction on strength performance. J Strength Cond Res 13: 52–57, 1999.

12. Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, Schoenfeld BJ, Henselmans M, Helms E, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. Br J Sports Med 52: 376–384, 2018.

13. Helms ER, Zinn C, Rowlands DS, and Brown SR. A systematic review of dietary protein during caloric restriction in resistance trained lean athletes: A case for higher intakes. Int J Sport Nutr Exerc Metab 24: 127–138, 2014.

14. Hernandez Valencia SE, M´endez S´anchez L, Clark P, Moreno Altamirano L, and Mej´ıa Arangur´e JM. Glutamine as an aid in the recovery of muscle strength: Systematic review of literature. Nutr Hosp 32: 1443–1453, 2015.

15. Wolfe RR. Branched-chain amino acids and muscle protein synthesis in humans: Myth or reality? J Int Soc Sports Nutr 14: 30, 2017.

16. Butts J, Jacobs B, and Silvis M. Creatine use in sports. Sports Health 10: 31–34, 2018.

17. Grgic J, Trexler ET, Lazinica B, and Pedisic Z. Effects of caffeine intake on muscle strength and power: A systematic review and meta-analysis. J Int Soc Sports Nutr 15: 11, 2018.

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