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MUITO ALÉM DAS MUDANÇAS CORPORAIS: O TREINAMENTO FÍSICO E A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A COGNIÇÃO DE IDOSOS

A manutenção de uma boa capacidade e forma física vem sendo apontadas há bastante tempo como fundamentais para um envelhecimento saudável [1,2]. Não é para menos, afinal, a perda das capacidades físicas e de massa muscular que geralmente ocorre com o envelhecimento estimula a inatividade física, o que pode aumentar ainda mais a dependência funcional e a mortalidade [3,4]. Agora a coisa ficou séria, hein? Acha que não? Se liga só: para se ter uma noção do problema que estamos vivenciando, estatísticas nos mostram que 44% dos idosos (isto é, pessoas acima de 65 anos) têm algum tipo de fraqueza ou incapacidade física, o que acaba por elevar o risco de comprometimento das atividades da vida diária em 54% [5]. E aí temos um ciclo vicioso perigoso, pois a percepção deste comprometimento pelo idoso pode leva-lo a se sentir inseguro, e assim, a se movimentar cada vez menos, contribuindo para uma piora ainda maior da saúde de uma maneira geral. E se parasse por aí, a situação estaria ‘menos pior’… Mas infelizmente não para, e as pioras ocasionadas pelo envelhecimento não estão restritas somente aos aspectos físicos. Elas também se estendem para um órgão central importantíssimo, responsável por controlar todas as ações voluntárias e involuntárias do corpo. Se você já se ligou, é dele mesmo que estou me referindo, o cérebro. Como tal, esse post se dedicará a discorrer um pouco sobre esta interação corpo x mente x exercício físico.

Função cognitiva e função executiva – dá para deixar mais claro o que são e a sua importância?

Tanto o cérebro como algumas funções que ele detém sob o seu controle, como a função cognitiva, também podem sofrer alterações com o envelhecimento, sendo a ‘função executiva’ uma das mais afetadas. Para quem não sabe, a função executiva é responsável pelo controle da memória, da atenção, do planejamento e da tomada de decisão, bem como pelo início e monitoramento de ações motoras. Opa, deu para ver que essa função é realmente importante, não? A partir dos papéis acima citados, fica claro que ela fornece à uma pessoa a autonomia necessária para realizar suas tarefas diárias! Inclusive, a deterioração dela vem sendo usada para explicar a incidência de demências (como o Mal de Alzheimer), as quais estatísticas nos mostram que 1 novo caso é detectado a cada 4 segundos [6], e para as quais ainda não há cura farmacêutica. Além disso, um ponto curioso é que evidências sugerem que a piora da capacidade física e da função executiva estão conectadas [7]; enquanto alguns autores têm apontado que um desempenho cognitivo mais baixo prediz declínios na velocidade da marcha [8], outros apontam que uma velocidade mais lenta da marcha é que precede o declínio cognitivo [9]. Independentemente se é ‘o ovo ou a galinha’ que vem primeiro, dado que estas ocorrências estão ligadas à 3ª idade, e que o número de idosos em todo o mundo está aumentando [10], estratégias que mantenham a saúde física E cognitiva desta população são imprescindíveis para aliviar um sistema de saúde já sobrecarregado! E quem vem se mostrando esse ‘salvador da pátria’ capaz de acertar ‘dois coelhos com uma cajadada’? O treinamento físico!

Exercício físico para melhorar a função cognitiva de idosos? Mas como?

Sim, é isso mesmo! Ao contrário do que muitos imaginam, falar de treinamento físico não é só falar de ‘corpo’! Em adição às mudanças que o treinamento físico pode promover sobre a capacidade (aumento de força, de equilíbrio,…) e forma física (perda de gordura corporal, aumento de massa muscular), evidências recentes têm indicado que o treinamento físico também tem o poder de causar mudanças positivas na função cognitiva de idosos, em especial, justamente na função executiva! E o mais impressionante, a melhora desse parâmetro gerada pelo treinamento parece ocorrer independentemente da condição mental inicial do avaliado [11]. Em outras palavras, tanto os idosos que possuem algum grau de comprometimento cognitivo quanto aqueles que não possuem podem ter a sua função cognitiva beneficiada! As explicações para este efeito do treinamento físico sobre a função cognitiva ainda não são completamente claras, mas incluem possivelmente 1) uma maior secreção de neurotransmissores, como a dopamina (a qual influencia o humor, aprendizado e a atenção), facilitando a comunicação entre os neurônios (células cerebrais) [12]; e 2) um maior fluxo sanguíneo para o cérebro [13], representando um maior suprimento de oxigênio e nutrientes e, consequentemente, de energia, para as células deste órgão. Há quem diga também que a neurogênese (isto é, a criação de novos neurônios) e a angiogênese cerebral (isto é, a criação de novos vasos sanguíneos no cérebro) constituem mecanismos adicionais explicando os efeitos do treinamento físico sobre a saúde cognitiva [14].

Função cognitiva e capacidade física no envelhecimento – podemos dizer que existe relação entre eles?

Uma revisão quantitativa recente sobre este assunto, publicada por pesquisadores canadenses no importante jornal Neurobiology of Aging, fornece ainda mais suporte aos efeitos terapêuticos do treinamento físico sobre a capacidade física e cognitiva da população idosa [15]. Nela, foram analisados 24 estudos considerados de alta qualidade e relacionados ao tema, os quais compreenderam no total mais de 800 participantes. Os resultados detectados pelos pesquisadores são bastante interessantes e esse blog deseja prover estas informações ‘recém-saídas do forno’ ao leitor. A respeito da capacidade física, ao realizar uma análise minuciosa de todos os estudos, os autores observaram  que marcadores de fragilidade, tais como a resistência e a força musculares, foram as capacidades que mais se mostraram ser beneficiadas com o treinamento físico se comparadas às outras capacidades, como a flexibilidade [15]. A partir disso, já temos uma primeira conclusão interessante: é possível afirmar que o treinamento físico pode ser adotado como uma importante estratégia preventiva para manter a capacidade física em idosos saudáveis, mas também pode ser empregado como uma intervenção para melhorar a autonomia e a capacidade física de idosos frágeis (isto é, que já estão sendo afetados pela perda de força muscular).

Um outro resultado bastante interessante detectado pelos autores após a análise dos 24 estudos está relacionado ao fato de que o treinamento físico, de uma maneira geral, proporcionou melhoras significantes sobre a capacidade cognitiva de idosos [15]. As melhoras sobre esta capacidade, entretanto, foram similares entre os diferentes tipos de treinamento físico comparados (aeróbio vs. musculação, por exemplo). Ou seja, temos mais uma conclusão importante: independentemente do tipo de treinamento físico escolhido, exercitar-se regularmente torna-se uma estratégia importante para prevenir a perda da capacidade cognitiva em idosos saudáveis, mas também para recuperá-la naqueles com algum tipo de demência ou comprometimento existente.

Mas o resultado mais interessante detectado pelos autores foi a existência de uma correlação positiva, moderada e linear entre a melhora da capacidade física e da capacidade cognitiva induzida pelo treinamento físico na população idosa [15] (ver figura abaixo, onde cada bolinha representa um estudo diferente, enquanto a linha representa a relação linear entre a melhora das duas capacidades; interpretando-a, ao passo que uma das capacidades aumenta, a outra também sofre alterações positivas), e que portanto, a melhora de um pode predizer a melhora do outro, mesmo que esse aspecto temporal da relação deles ainda não esteja totalmente esclarecido. Por outro lado, se você está se perguntando sobre a ‘dose ideal’ (volume, intensidade, frequência, duração) de exercícios aeróbios e/ou de musculação que pode induzir melhoras de magnitude elevada e semelhante da saúde cognitiva e da saúde física de idosos, infelizmente, a literatura ainda não tem uma resposta conclusiva para esta dúvida.

O que você está esperando para acertar estes dois coelhos (capacidade física e cognitiva) com uma cajadada só (exercício físico)?

Sumarizando a discussão desse post, é possível afirmar (com todas as letras!) que o treinamento físico se apresenta como uma ferramenta terapêutica eficaz para melhorar não apenas a capacidade física, mas também a capacidade cognitiva de idosos; e que as melhoras induzidas pelo treinamento sobre estas duas capacidades estão associadas uma à outra, sugerindo que programas de treinamento físico voltados para esta população implementem a avaliação destas duas capacidades concomitantemente. Em virtude do mencionado, fica evidenciado que esforços contínuos devem ser feitos para incentivar todos os adultos a criarem o hábito de se exercitarem regularmente, uma vez que essa conduta pode ajudar a reduzir o risco de comprometimento físico e cognitivo em períodos mais tardios da vida.

1. Morley, J.E., 2016. Frailty and sarcopenia: the new geriatric giants. Rev. Invest. Clin. 68, 59e67.

2. Morley, J.E., Morris, J.C., Berg-Weger, M., Borson, S., Carpenter, B.D., del Campo, N., Dubois, B., Fargo, K., Fitten, L.J., Flaherty, J.H., 2015. Brain health: the importance of recognizing cognitive impairment: an IAGG consensus conference. J. Am. Med. Dir. Assoc. 16, 731e739.

3. Njegovan, V., Man-Son-Hing, M., Mitchell, S.L., Molnar, F.J., 2001. The hierarchy of functional loss associated with cognitive decline in older persons. J. Gerontol. A. Biol. Sci. Med. Sci. 56, M638eM643.

4. Panza, F., Lozupone, M., Solfrizzi, V., Sardone, R., Dibello, V., Di Lena, L., D’Urso, F., Stallone, R., Petruzzi, M., Giannelli, G., 2018. Different cognitive frailty models and health-and cognitive-related outcomes in older age: from epidemiology to prevention. J. Alzheimers Dis. 62, 993e1012.

5. Duchowny, K.A., Clarke, P., Peterson, M., 2017. Muscle weakness and physical disability in older Americans: longitudinal findings from the US Health and Retirement Study. J. Nutr. Health Aging 22, 1e7.

6. World Health Organization, Alzheimer’s Disease International, 2012. Dementia: A Public Health Authority, p. 112.

7. Clouston, S.A., Brewster, P., Kuh, D., Richards, M., Cooper, R., Hardy, R., Rubin, M.S., Hofer, S.M., 2013. The dynamic relationship between physical function and cognition in longitudinal aging cohorts. Epidemiol. Rev. 35, 33e50.

8. Best, J.R., Liu-Ambrose, T., Boudreau, R.M., Ayonayon, H.N., Satterfield, S., Simonsick, E.M., Studenski, S., Yaffe, K., Newman, A.B., Rosano, C., Health, Aging and Body Composition Study, 2016. An evaluation of the longitudinal, bidirectional associations between gait speed and cognition in older women and men. J. Gerontol. A. Biol. Sci. Med. Sci. 71, 1616e1623.

9. Mielke, M.M., Roberts, R.O., Savica, R., Cha, R., Drubach, D.I., Christianson, T., Pankratz, V.S., Geda, Y.E., Machulda, M.M., Ivnik, R.J., 2012. Assessing the temporal relationship between cognition and gait: slow gait predicts cognitive decline in the Mayo Clinic Study of Aging. J. Gerontol. A. Biol. Sci. Med. Sci. 68, 929e937.

10. Vincent, G.K., Velkoff, V.A., 2010. The Next Four Decades: The Older Population in the United States: 2010 to 2050. US Department of Commerce, Economics and Statistics Administration, US Census Bureau.

11. Northey, J.M., Cherbuin, N., Pumpa, K.L., Smee, D.J., Rattray, B., 2018. Exercise interventions for cognitive function in adults older than 50: a systematic review with meta-analysis. Br. J. Sports Med. 52, 154e160.

12. McMorris, T. (2016). Developing the catecholamines hypothesis for the acute exercise-cognition interaction in humans: Lessons from animal studies. Physiology & Behavior, 165, 291-299.

13. Coetsee, C., & Terblanche, E. (2017). Cerebral oxygenation during cortical activation: the differential influence of three exercise training modalities. A randomized controlled trial. European Journal of Applied Physiology, 117, 1617-1627.

14. Cotman, C.W., Berchtold, N.C., Christie, L.-A., 2007. Exercise builds brain health: key roles of growth factor cascades and inflammation. Trends Neurosci. 30, 464e472.

15. Falck RS, Davis JC, Best JR, Crockett RA, Liu-Ambrose T. Impact of exercise training on physical and cognitive function among older adults: a systematic review and meta-analysis. Neurobiol Aging. 2019; 79: 119-130.

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