PROGRAMAS DE TREINAMENTO FÍSICO SUPERVISIONADOS vs. NÃO SUPERVISIONADOS PARA IDOSOS – QUAL É SUPERIOR AO OUTRO?
Envelhecimento e algumas de suas consequências
Todos sabemos que o envelhecimento é um processo natural da espécie humana. Não tem como ser evitado. Faz parte, e quanto mais rápido aceitarmos, melhor. Porém, é importante saber que ele não vem sozinho. Processos degenerativos nos músculos esqueléticos (dentre eles, a perda de fibras musculares do tipo II – que são as fibras que conseguem gerar mais força/tensão) e no sistema neural (tais como a perda de neurônios sensoriais e motores) podem ocorrer com a chegada da 3ª idade [1]. Ah! E ter um estilo de vida fisicamente inativo não ajuda em nada esse quadro, na verdade, piora ele ainda mais [1]. Consequentemente, essas deteriorações fisiológicas resultam em piora do equilíbrio, bem como da força e potência musculares nessa população quando comparada a populações mais jovens [2-5].
Ok, você deve estar se perguntando “E por que a perda de equilíbrio e força é um problema”? Te falo agora mesmo: A piora destas capacidades está associada a um risco aumentado de quedas [6]! E ‘cair’ é um problemão, não? As quedas na 3ª idade elevam demais o risco de fraturas, e assim, representam uma oneração pessoal substancial e ameaçam a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde [7]! As lesões relacionadas às quedas aumentam a perda de mobilidade, o número de admissões em casas de repouso/lares de idosos, e por fim, a mortalidade [8,9]. Tendo em vista que a proporção de idosos está aumentando globalmente, é imprescindível que haja uma ampla implementação de estratégias eficazes para mitigar as perdas de equilíbrio e força musculares relacionadas à idade. Dentre elas, destaca-se o treinamento físico!
A supervisão como fator diferencial nos programas de treinamento físico para idosos
Bom, que o treinamento físico é uma excelente ferramenta terapêutica para a população idosa não é uma surpresa para ninguém. De fato, programas de treinamento de equilíbrio e de musculação apropriadamente projetados têm se mostrado eficazes em melhorar o equilíbrio estático e dinâmico de idosos [10,11], bem como a força e potência musculares desta população [12]. Contudo, há bastante tempo paira uma dúvida na literatura sobre este assunto: existiria alguma diferença na eficácia desses programas de treinamento físico, no que diz respeito àqueles que são supervisionados e aqueles que não são? Em outras palavras, há alguma diferença em indivíduos idosos treinarem sozinhos ou acompanhados por um profissional? Talvez a resposta para essa dúvida seja óbvia para alguns de vocês, mas por incrível que pareça essa dúvida é bastante pertinente! Isso porque existe certa inconsistência nos resultados advindos de pesquisas que compararam a influência de programas de treinamento com ou sem supervisão executados em instalações e de programas domésticos não supervisionados [10,12,13,14]. Ou seja, explorar e discutir essas inconsistências é importante, principalmente tendo em vista hipóteses recentes de que programas de treinamento em grupo ou em casa são igualmente eficazes para evitar quedas em idosos (ou seja, o idoso nem precisaria sair de casa para adquirir os benefícios do exercício!) [7]. Logo, evidências que apoiem essa possibilidade talvez poderiam aumentar o número de idosos participantes de programas de prevenção de quedas em casa sem supervisão, uma vez que 1) muitos idosos não têm capacidade ou motivação para participar de um programa de treinamento supervisionado em instalações ou em grupo [15]; 2) idosos que possuem histórico de quedas parecem preferir programas de exercícios que podem ser realizados em casa ou que não requerem transporte de um local a outro [16]; e 3) frente a uma condição adversa na sociedade que ameaça populações de risco (digamos, uma pandemia!), a exposição não é nada atraente. Sem contar que treinar sob supervisão, inevitavelmente, possui custos. Assim, custos reduzidos associados à ausência de supervisão poderiam ajudar a popularizar programas de exercícios de prevenção de quedas para grandes populações.
Supervisionar ou não supervisionar, eis a questão
Beleza, temos um interesse criado! Mas e aí, como saber qual destes métodos (supervisionado vs. sem supervisão) é melhor se as pesquisas existentes possuem resultados conflitantes? Ora meus caros, neste caso, recomendo sempre que vocês procurem revisões literárias quantitativas sobre o assunto, em especial as chamadas ‘metanálises’. Não sabe o que é uma ‘meta-análise’? De maneira resumida, ela é uma revisão de informações/estudos na literatura, mas que se utiliza de critérios bem definidos de inclusão e exclusão para estabelecer quais estudos/informações serão revisadas; e uma vez que as pesquisas foram selecionadas, são empregadas análises estatísticas sobre os resultados contidos nos diferentes estudos individuais, com o objetivo de integrá-los, combiná-los e resumi-los [17]. Simplificando, as metanálises estão no topo da pirâmide de evidências científicas sobre um assunto (!!), portanto, os resultados advindos de uma meta-análise geralmente são aceitos como incontestáveis. E por essa razão, nesse post decidi trazer as informações provenientes da meta-análise mais recente comparando a eficácia de programas de treinamento físico supervisionados vs. não supervisionados sobre o equilíbrio e força muscular de idosos, conduzida por Lacroix e colegas [18].
Sem mais delongas, vamos ao que interessa! Como primeiro resultado, os cálculos efetuados por estes autores alemães mostraram que tanto o treinamento físico com supervisão quanto o sem supervisão foram eficazes em melhorar a força muscular e equilíbrio de idosos [18]. Opa! Para aqueles que gostam de treinar sozinhos eu já senti um suspiro de alegria daqui! Mas sempre tem um “porém”, não? Vamos a ele: Por outro lado, ao comparar os dois métodos, os autores identificaram que os programas de treinamento físico que receberam supervisão apresentaram efeitos amplamente superiores sobre as capacidades físicas acima mencionadas quando comparados aos programas sem supervisão [18]! Pois é, ‘alegria de pobre dura pouco’… Bom, no mínimo vocês devem estar se perguntando “Mas por que?”, certo? Afinal, resultados precisam de explicação! Como a supervisão aumenta os resultados do treinamento? Bom, maiores benefícios com os programas de treinamento físico supervisionados vs. não supervisionados podem ser atribuídos ao fato de que, sob supervisão, os participantes muito provavelmente irão executar os exercícios com melhor qualidade! Uma qualidade mais alta na execução dos exercícios pode significar que os participantes que recebem supervisão vão realizar os exercícios com mais precisão, com maior amplitude de movimento, com mais dedicação, ou de outras maneiras que culminem num aumento da intensidade do exercício e até da aderência aos exercícios. Com isso, ao resultar em maior intensidade de treinamento e melhor aderência [19], o participante desempenharia um maior volume total de treinamento [20,21], o qual vem sendo apontado por diversos autores como uma variável extremamente importante determinando as adaptações ao treinamento físico [22-24].
Vale a pena ressaltar um último ponto abordado na meta-análise [18] discutida nesse post. Em específico, as diferenças mais positivas e superiores a favor dos programas supervisionados que os autores observaram ocorreram quando os programas totalmente supervisionados foram comparados com os programas de treinamento completamente ausentes de supervisão. Contudo, quando foram considerados na análise os ‘programas de treinamento sem supervisão’, mas que receberam algum tipo de orientação, ainda que mínima (no caso, duas vezes por semana), os efeitos positivos superiores permaneceram existindo a favor dos ‘programas de treinamento totalmente supervisionados’, mas a diferença deles para os programas ‘sem supervisão’ diminuiu drasticamente. A partir dessas informações, é possível especular que sessões supervisionadas sejam essenciais para idosos engajados em programas de exercícios que requerem uma execução tecnicamente correta (como os exercícios de força e equilíbrio); mas que um pequeno número de sessões supervisionadas pode ser suficiente para melhorar o desempenho em comparação aos programas completamente não supervisionados, ainda que os programas totalmente supervisionados sejam os melhores. Agora, se você está se perguntando “qual seria esse número pequeno/mínimo de sessões supervisionadas para que os efeitos dos programas de treinamento físico para a melhora de força e equilíbrio sejam maximizados na população idosa?”, a melhor resposta que eu tenho para você é: Nós ainda não sabemos!
Ou seja, investir em supervisão durante programas de treinamento físico significa investir em eficácia de resultados, atenção e segurança! Mas se não for possível, o importante é se exercitar!?
Em suma, se você é idoso ou possui um parente idoso que precisa de um programa de exercícios físicos para melhorar a força e o equilíbrio, vale sim muito a pena um investimento num profissional do campo da saúde, como da área de Educação Física ou Fisioterapia, para supervisionar as sessões e garantir a melhor qualidade de treino o possível se você quiser maximizar os benefícios com tal programa! Caso as circunstâncias (por exemplo, recursos, problemas de mobilidade, transporte, motivação para sair de casa, problemas financeiros) não permitirem exercícios completamente supervisionados, programas de exercícios completamente ou parcialmente não-supervisionados ainda podem ser uma opção para melhorar o equilíbrio e a força muscular. Ainda assim, programas de treinamento que recebam pelo menos um pequeno número de sessões supervisionadas podem ser uma importante alternativa para ajudar a otimizar os resultados sobre a saúde. Em virtude disso, esse blog recomenda que sessões supervisionadas por profissionais da saúde (pelo menos 2-3x/semana) deveriam ser incluídas em programas de treinamento para a população idosa voltados para ganhar força e equilíbrio para garantir efeitos ótimos e clinicamente relevantes.
1. Aagaard P, Suetta C, Caserotti P, Magnusson SP, Kjaer M. Role of the nervous system in sarcopenia and muscle atrophy with aging: strength training as a countermeasure. Scand J Med Sci Sports. 2010;20:49–64.
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